poemas

O Mosquito Escreve



O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.

O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.

Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.

Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.

Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?

E ele está com muita fome.





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Infância



Sou pequeno
e penso em coisas grandes:
pomares e mais pomares,
jardins de flores e flores
e pelas montanhas e vales
grama verdinha e bosques,
com milhões de árvores
e asas de passarinhos.


Rios e mares de peixes
— aquários largos e livres
— ar dos campos e praias,
a manhã trazendo o dia
com o sol da esperança
e a noite de sonhos lindos,
nuvens calmas, lua e astros,
minhas mãos pegando estrelas
neste céu de doce infância.


E pelas estradas claras
meu cavalinho veloz
no galopar mais feliz:
— eu e ele sorrindo,
levando nosso cristal
para os meninos do mundo.



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A Arca de Noé




Sete em cores, de repente

O arco-íris se desata

Na água límpida e contente

Do ribeirinho da mata.



O sol, ao véu transparente

Da chuva de ouro e de prata

Resplandece resplendente

No céu, no chão, na cascata.



E abre-se a porta da Arca

De par em par: surgem francas

A alegria e as barbas brancas

Do prudente patriarca



Noé, o inventor da uva

E que, por justo e temente

Jeová, clementemente

Salvou da praga da chuva.



Tão verde se alteia a serra

Pelas planuras vizinhas

Que diz Noé: "Boa terra

Para plantar minhas vinhas!"



E sai levando a família

A ver; enquanto, em bonança

Colorida maravilha

Brilha o arco da aliança.



Ora vai, na porta aberta

De repente, vacilante

Surge lenta, longa e incerta

Uma tromba de elefante.



E logo após, no buraco

De uma janela, aparece

Uma cara de macaco

Que espia e desaparece.



Enquanto, entre as altas vigas

Das janelinhas do sótão

Duas girafas amigas

De fora a cabeça botam.



Grita uma arara, e se escuta

De dentro um miado e um zurro

Late um cachorro em disputa

Com um gato, escouceia um burro.



A Arca desconjuntada

Parece que vai ruir

Aos pulos da bicharada

Toda querendo sair.





Vai! Não vai! Quem vai primeiro?

As aves, por mais espertas

Saem voando ligeiro

Pelas janelas abertas.



Enquanto, em grande atropelo

Junto à porta de saída

Lutam os bichos de pelo

Pela terra prometida.



"Os bosques são todos meus!"

Ruge soberbo o leão

"Também sou filho de Deus!"

Um protesta; e o tigre — "Não!"



Afinal, e não sem custo

Em longa fila, aos casais

Uns com raiva, outros com susto

Vão saindo os animais.



Os maiores vêm à frente

Trazendo a cabeça erguida

E os fracos, humildemente

Vêm atrás, como na vida.



Conduzidos por Noé

Ei-los em terra benquista

Que passam, passam até

Onde a vista não avista



Na serra o arco-íris se esvai . . .

E . . . desde que houve essa história

Quando o véu da noite cai

Na terra, e os astros em glória



Enchem o céu de seus caprichos

É doce ouvir na calada

A fala mansa dos bichos

Na terra repovoada.




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Natal




De repente o sol raiou

E o galo cocoricou:



— Cristo nasceu!



O boi, no campo perdido

Soltou um longo mugido:



— Aonde? Aonde?



Com seu balido tremido

Ligeiro diz o cordeiro:



— Em Belém! Em Belém!



Eis senão quando, num zurro

Se ouve a risada do burro:



— Foi sim que eu estava lá!



E o papagaio que é gira

Pôs-se a falar: — É mentira!



Os bichos de pena, em bando

Reclamaram protestando.



O pombal todo arrulhava:

— Cruz credo! Cruz credo!



Brava

A arara a gritar começa:



— Mentira! Arara. Ora essa!



— Cristo nasceu! canta o galo.

— Aonde? pergunta o boi.

— Num estábulo! — o cavalo

Contente rincha onde foi.



Bale o cordeiro também:



— Em Belém! Mé! Em Belém!



E os bichos todos pegaram

O papagaio caturra

E de raiva lhe aplicaram

Uma grandíssima surra.




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As Abelhas




A AAAAAAAbelha mestra

E aaaaaaas abelhinhas

Estão tooooooodas prontinhas

Pra iiiiiiir para a festa.



Num zune que zune

Lá vão pro jardim

Brincar com a cravina

Valsar com o jasmim.



Da rosa pro cravo

Do cravo pra rosa

Da rosa pro favo

Volta pro cravo.



Venham ver como dão mel

As abelhinhas do céu!




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